quinta-feira, janeiro 12, 2006

A raiva pelo silêncio

Ela vinha de um dia frustrado, sem muito o que fazer de bom, com muito o que fazer de ruim. Cansanda de andar de um lado pro outro, subir e descer escadas, levar um documento aqui, xerocar outro documento ali, digitar alguma outra palhaçada judicial, ela tirou os sapatos de estagiária e se enfiou em baixo das cobertas, para uma revigorante noite de sono.

Mas não demorou muito, porém, e eles chegaram: os ruídos. Ruídos ensurdecedores, as onze da noite gente andando de um lado para o outro, barulho de papel sendo rasgado, conversa alta no andar de cima. Virou para a direita. Talvez enfiar a cabeça contra a parede seja útil para abafar o som. Mas ele continuava. Meia noite e meia. Agora uns gemidos, o casal transava adoidado, ela gritava como se estivesse sendo obrigada a correr uma maratona debaixo de um sol de 40°C, e ele dizia "Toma! Toma!", tão esbaforido quanto ela. Quem sabe tomar um copo de leite? uma e vinte e cinco. O casal que a pouco se amava estava brigando. Aparentemente ele pronunciara um nome indevido. Peças de vidro, que ela não sabia se eram vasos ou pratos, colidiam contra as paredes e retumbavam no chão. De repente um silêncio. E um choro baixinho mas perfeitamente audível irritava seus ouvidos. Eram dez pras três da manhã. A essa altura, a vontade de tomar uma atitude já estava começando a ter forma. O olho ardia e a vizinha gritava "Eu te odeio! Eu te odeio!" para o prédio inteiro. No meio da discussão, ela pensou em subir lá, bater na porta... "Tu é uma vadia!" ... não, bater não, esmurrar a porta, e exigir silêncio. "Tu é um pau no cu!" Melhor, imaginava-se derrubando a porta, olhando furiosa para um casal estupefato, e dizendo que se eles não tinham o que fazer, ela tinha que trabalhar amanhã de manhã... ou hoje, enfim..."Puta! Eu sou o maior corno da história!"... Rá, eles se negavam a calar a boca? Um facão bem ao alcance das mãos surgia e ela os esquartejava, e enquanto o sangue jorrava para as suas mãos e manchava o carpete, ela diria que se eles querem um motivo para gritar, ela lhes daria um motivo para gritar! "Eu te amo!" E não adiantaria tentar partir pra cima, porque a raiva que sentia a daria uma força descomunal de vinte homens, e ela empurraria a vadia contra a parede, e enfiaria a faca bem no meio do seu estômago, e ela regurgitaria para o silêncio, e então seria possível dormir em paz! No relógio, quatro horas. Era isso!

Sem titubear, jogou as cobertas para o lado com fúria, saltou da cama e, entre bufando de raiva e reunindo coragem, tudo, de repente, parou. A briga parou. Os pratos cessaram. Enfim o silêncio. Não conseguiu mais dormir.

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